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Quarta, 18 de Julho 2018.



RECIFE

03/01/2018 15:10:48

Dom Fernando Saburido cobra ações do governo TEMER

Reação veio com o Título de Patrono brasileiro dos Direitos Humanos a Dom Hélder

(FOTO: LUNA MARKMAN/G1)

A concessão do título de 'Patrono Brasileiro dos Direitos Humanos' ao arcebispo emérito de Olinda e Recife, dom Helder Câmara, provocou a reação do arcebispo de Olinda e Recife, dom Fernando Saburido. Em um artigo publicado na página oficial da arquidiocese, o religioso criticou o decreto 13.581, aprovado pela Câmara dos Deputados e assinado pelo presidente da República Michel Temer (PMDB), em 27 de dezembro de 2017. Também cobrou mais coerência das ações sociais do governo federal na área de direitos humanos.

A carta aos católicos foi publicada na terça-feira (2), no site da arquidiocese e no perfil pessoal nas redes sociais. No texto, dom Fernando Saburido afirma que é precioso fazer mais ações em benefício dos mais pobres.

"Como arcebispo de Olinda e Recife, ministério que foi ocupado por dom Helder Camara, sinto-me, em consciência, obrigado a declarar publicamente que esse decreto presidencial, para ser sincero e coerente, precisa ser acompanhado por outro modo de governar o país e de cuidar do que é público, principalmente do bem maior que é o povo, sobretudo os mais fragilizados", afirma o arcebispo.

Nascido no Ceará, em 1909, dom Helder se tornou um a das referências na luta pelos direitos humanos e contra a ditadura militar (1964-1985). Ele assumiu o cargo de arcebispo de Olinda e Recife em março de 1964 e desempenhou a função até 2 de abril de 1985. É o brasileiro com mais indicações ao Prêmio Nobel da Paz, com quatro nomeações.

No início do documento, o religioso enaltece a figura de dom Helder Câmara e se diz surpreso com a ambiguidade do decreto. "Todos os brasileiros conscientes e que amam a justiça e o direito concordam que Dom Helder é nosso patrono em toda a luta pacífica pela justiça, pela paz e pelos direitos humanos, tanto individuais, como coletivos das minorias fragilizadas pela sociedade dominante. O texto dessa lei é sucinto e não explicita motivações, nem consequências", escreve.

O arcebispo diz, ainda, que é responsabilidade de cidadãos e de cristãos dar peso às palavras e exigir dos poderes públicos coerência em seus posicionamentos. "Se a Política que deveria ser um exercício nobre do serviço ao bem comum está tão desacreditada é porque os políticos não primam pela coerência entre o seu falar e o seu agir", declara.

Dom Saburido cita problemas ocorrido no atual governo de Michel temer e fala aborda atos de "esvaziamento" das ações de direitos humanos. Também questiona o fato de a administração federal ter 'reduzido os gastos com saúde e educação.

"Será que nomear Dom Helder patrono brasileiro dos Direitos Humanos fará o governo voltar atrás da decisão de reduzir substancialmente os gastos públicos em saúde e educação, deixando os milhões de pobres abandonados à própria sorte? Como pensar em Direitos Humanos e relaxar as regras do controle ao trabalho escravo, assim como sujeitar os trabalhadores a regras que lhes são contrárias e que retiram direitos adquiridos na Constituição de 1988?", questiona.

Repercussão

Para o presidente do Instituto Dom Helder Câmara (Idhec), Antônio Carlos Maranhão, o arcebispo dom Fernando Saburido foi muito feliz ao fazer as cobranças ao governo federal, diante do título. "Dom Helder é muito mais do que patrono de direitos humanos. É um profeta. E esse governo não tem coerência para conceder um título desse a uma pessoa tão importante", afirma.

Segundo ele, dom Helder lutou a vida toda contra a concentração de renda, o lucro e pelos menos favorecidos. Além disso, afirma Maranhão, o título foi concedido sem a consulta prévia aos grupos e entidades de defesa de direitos humanos. "Ele partiu de um Conggreso Nacional manchado, que não tem legitimidade para fazer isso", acrescentou.

Resposta

Por meio de nota, a assessoria de comunicação da Presidência da República informou que a Lei n° 13.581/2017, que declara Dom Helder Câmara "Patrono Brasileiro dos Direitos Humanos", decorreu de projeto de lei (PL 7230/2014) de autoria do deputado Arnaldo Jordy do PPS/PA.

A sanção dessa lei pelo presidente da República, Michel Temer, após aprovação na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, é uma merecida homenagem à biografia de Dom Helder Câmara.

Confira o texto na íntegra de dom Fernanando Saburido

Queridos irmãos e irmãs de nossa arquidiocese,

Todos nós fomos surpreendidos pela Lei n. 13581, de 26 de dezembro de 2017, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo presidente da República Michel Temer. Declara Dom Helder Camara patrono brasileiro dos direitos humanos.

Todos os brasileiros conscientes e que amam a justiça e o direito concordam que Dom Helder é nosso patrono em toda a luta pacífica pela justiça, pela paz e pelos direitos humanos, tanto individuais, como coletivos das minorias fragilizadas pela sociedade dominante. No entanto, nos surpreendemos pela ambiguidade desse decreto, sentimento já expresso por amigos de Dom Helder, inclusive, Marcelo Barros que escreveu uma profética carta dirigida ao Dom da Paz. O texto dessa lei é sucinto e não explicita motivações, nem consequências. No entanto, nenhum ato dessa natureza é neutro ou sem repercussões.

Em seu tempo, o profeta Jeremias adverte os governantes do seu povo: "Sem responsabilidade, querem curar as feridas do meu povo dizendo apenas Paz, Paz, quando paz verdadeira não existe. Deveriam envergonhar-se, pois o que fizeram foi horrível, mas não se acanham, mesmo eles não sabem o que é ter vergonha" (Jer 8, 11- 12).

É nossa responsabilidade de cidadãos e de cristãos dar peso às palavras e exigir dos poderes públicos coerência em seus posicionamentos. Se a Política que deveria ser um exercício nobre do serviço ao bem comum está tão desacreditada é porque os políticos não primam pela coerência entre o seu falar e o seu agir.

O que significa essa medida vir de um governo que justamente esvaziou a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e comprometeu todo o trabalho que vinha sendo feito na luta contra todo tipo de discriminações? Será que nomear Dom Helder patrono brasileiro dos Direitos Humanos fará o governo voltar atrás da decisão de reduzir substancialmente os gastos públicos em saúde e educação, deixando os milhões de pobres abandonados à própria sorte? Como pensar em Direitos Humanos e relaxar as regras do controle ao trabalho escravo, assim como sujeitar os trabalhadores a regras que lhes são contrárias e que retiram direitos adquiridos na Constituição de 1988? E o que dizer da reforma da Previdência Social pela qual esse mesmo governo pressiona de formas ilícitas para vê-la aprovada?

Como arcebispo de Olinda e Recife, ministério que foi ocupado por Dom Helder Camara, sinto-me, em consciência, obrigado a declarar publicamente que esse decreto presidencial, para ser sincero e coerente, precisa ser acompanhado por outro modo de governar o país e de cuidar do que é público, principalmente do bem maior que é o povo, sobretudo os mais fragilizados.

Em nome de Deus, fonte de Amor e de Vida, conclamo os cristãos e todo o povo brasileiro a prosseguirmos a luta pacífica pela justiça e pela paz. Assim, como fez Dom Helder Camara, trabalharemos pelos Direitos Humanos a partir da defesa dos direitos dos pobres, dos trabalhadores, das minorias excluídas e de todo ser vivo.

O Espírito de Jesus que nasceu como pobre nos acompanhe e nos fortaleça nesse caminho,

Dom Antônio Fernando Saburido

Arcebispo de Olinda e Recife

 

Fonte: G1PE





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