
Com novas exigências da NR-1, organizações precisam mapear fatores que afetam a saúde mental e implementar ações de prevenção
A preocupação com a saúde física e mental dos trabalhadores deixou de ser apenas uma pauta de recursos humanos e passou a ocupar lugar estratégico nas empresas brasileiras. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que exige a identificação e o gerenciamento dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho, reflete uma mudança de percepção que ganhou força especialmente após a pandemia.
Os números mostram que o tema também tem repercussões jurídicas cada vez mais expressivas. Dados do Programa Trabalho Seguro, do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e do Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT), apontam que mais de 540 mil ações relacionadas à saúde e segurança do trabalhador foram ajuizadas em 2025. Desse total, 196,4 mil envolvem doenças ocupacionais, 170,1 mil tratam de acidentes de trabalho e outras 142,8 mil têm como foco o assédio moral.
Segundo a advogada e sócia do escritório Bahia, Lins e Lessa, Isabela Lessa, a sociedade vive uma transformação na forma de encarar a saúde mental. “Começamos a entender que se cuidar não é apenas cuidar do corpo, mas também da mente. Hoje reconhecemos que o burnout é uma doença laboral, que o assédio adoece e que a falta de tempo para a vida fora do trabalho também pode ser um fator de adoecimento”, afirma.
A especialista ressalta que a atual geração é a primeira a discutir de forma mais ampla o bem-estar psicossocial, a importância da terapia e os afastamentos relacionados a questões emocionais. “Antes, esses problemas eram tratados como algo restrito ou motivo de estigmatização. Hoje existe uma compreensão maior sobre a necessidade de acolhimento e prevenção”, destaca.
O aumento das ações trabalhistas evidencia essa mudança. Apenas os processos por assédio moral cresceram 22% em 2025, chegando a 142,8 mil novos casos, segundo o TST. Em cinco anos, mais de 600 mil ações relacionadas ao tema chegaram à Justiça do Trabalho. Os processos envolvendo síndrome de burnout também avançam. Entre janeiro e abril de 2025, foram registradas 5.248 ações, aumento de 14,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em uma década, o crescimento acumulado chegou a 424%, movimentando quase R$ 10 bilhões em valores de causa.
Na avaliação de Isabela Lessa, muitas medidas capazes de promover um ambiente mais saudável são relativamente simples. Entre elas estão o controle adequado da jornada, um banco de horas eficiente, regras internas claras e o respeito ao direito à desconexão. “A empresa não pode ficar cobrando o funcionário durante as férias ou nos períodos de descanso. Além disso, as metas precisam existir, mas não podem ser abusivas nem provocar adoecimento”, explica.
Outro desafio está na forma como as lideranças se relacionam com as equipes. “Comunicação e liderança são os grandes entraves dentro das organizações. Muitos modelos ainda são baseados em pressão e humilhação, quando os tempos atuais exigem uma liderança mais colaborativa, construída por meio de acordos, respeito e propósito”, observa.
Os reflexos dos problemas emocionais também aparecem nos afastamentos do trabalho. Levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), com base em dados oficiais, mostra que os afastamentos por transtornos mentais cresceram de 219,8 mil para 393,6 mil entre 2023 e 2025. No ano passado, a Previdência Social concedeu mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária relacionados a problemas de saúde mental.
Além das ações na Justiça do Trabalho, a atualização da NR-1 amplia os riscos para as empresas na esfera administrativa. A norma determina que os riscos psicossociais sejam incluídos no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), exigindo também a adoção de medidas para enfrentar os problemas identificados.
“Além do passivo trabalhista, existe agora a possibilidade concreta de multas aplicadas pelo Ministério do Trabalho. Se os auditores fiscais encontrarem uma empresa sem o PGR atualizado, sem o mapeamento dos riscos psicossociais e sem um plano de ação para enfrentar os problemas identificados, a penalidade poderá chegar antes mesmo de uma ação na Justiça do Trabalho”, alerta Isabela Lessa.
De acordo com a advogada, investir em saúde mental e bem-estar deixou de ser apenas uma iniciativa voltada à qualidade de vida dos colaboradores e passou a representar uma medida estratégica para reduzir riscos jurídicos, preservar a produtividade e fortalecer as relações de trabalho.







