Mais anos de vida, mais vida nos anos: os caminhos para envelhecer com autonomia devem começar antes da velhice

0
Foto: Magnific

Brasil amplia expectativa de vida, mas especialistas alertam que longevidade precisa estar associada à saúde, independência e propósito

Nunca o brasileiro viveu tanto. Acompanhando uma tendência global, viver mais no Brasil é uma realidade. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida do brasileiro ao nascer é de 76,6 anos (dados de 2024). Apesar da longevidade populacional em países desenvolvidos ser superior a 80 anos, o Brasil avançou no tema, recuperando e superando os níveis observados antes e durante a pandemia (em 2019, a expectativa era de 76,2 anos; em 2021, no período mais crítico da pandemia, caiu para 72,8 anos, segundo o IBGE).

Sem dúvidas, viver mais é uma conquista. Mas será suficiente? O que pesa mais, a quantidade de anos ou a qualidade de vida durante esse tempo? Especialistas alertam que a longevidade sem autonomia e saúde pode comprometer o bem-estar. É nesse contexto que o conceito de envelhecimento ativo ganha cada vez mais importância.

Segundo a médica-geriatra Mirella Rebello, da Florence Hospital de Transição Recife, envelhecer de forma ativa vai muito além da prática de exercícios físicos. “Quando a gente fala em envelhecimento ativo, muita gente pensa logo em academia ou em correr uma maratona. Mas não é isso. Envelhecimento ativo é chegar aos 60, 70, 80 anos mantendo o máximo possível da autonomia, da saúde e da participação na vida”, explica.

Na prática, envelhecer bem é continuar desempenhando atividades que dão propósito ao dia a dia. “Isso significa continuar fazendo aquilo que dá sentido à vida, como trabalhar, quando a pessoa deseja e pode; conviver com a família e os amigos; participar da igreja, de grupos comunitários, aprender coisas novas, cuidar da própria saúde e manter o corpo em movimento”, destaca.

O que pode comprometer a independência?

Ao contrário do que muitos imaginam, a perda da autonomia não acontece simplesmente por causa da idade, mas pelo acúmulo de vários fatores ao longo da vida. Entre eles estão doenças crônicas mal controladas, como hipertensão e diabetes, sedentarismo, perda de força muscular, alterações na visão e audição, comprometimento cognitivo e depressão.

“O sedentarismo leva à perda de força muscular, aumentando o risco de quedas. Problemas de visão e audição, quando não tratados, fazem a pessoa se isolar mais. A depressão e o comprometimento da memória também reduzem a autonomia”, explica Mirella Rebello.

Outro fator frequentemente negligenciado é o isolamento social. “O ser humano precisa conviver. Conversar, rir, encontrar amigos, participar da igreja, de grupos de bairro ou da família faz diferença não apenas para a saúde emocional, mas também para a saúde física. A independência na velhice depende de manter músculos fortes, cérebro ativo, doenças controladas e uma boa rede de apoio”, alerta a profissional.

Os hábitos que fazem diferença

Embora o envelhecimento seja inevitável e o desejo de todo aquele que vive, afinal, ninguém que ir embora cedo, boa parte da qualidade de vida na terceira idade é construída décadas antes.

“O mais importante é entender que envelhecer bem começa muito antes da velhice. Cada pequena escolha feita hoje é um investimento na saúde de amanhã e a boa notícia é que nunca é tarde para começar. Mesmo pequenas mudanças trazem benefícios”, afirma a geriatra.

Isso significa que a adoção de hábitos saudáveis na meia-idade pode reduzir significativamente o risco de perda funcional no futuro. Para isso, o primeiro passo é incorporar mais movimento à rotina. “Não precisa começar correndo cinco quilômetros. Vale caminhar mais, usar escadas quando possível, dançar, pedalar, cuidar do jardim ou brincar com os netos. O importante é reduzir o tempo sentado”, orienta a médica.

A alimentação também exerce papel fundamental. “O arroz com feijão, acompanhado de verduras, legumes e frutas, é uma excelente base. O maior desafio hoje é diminuir os alimentos ultraprocessados, os refrigerantes, os embutidos e o excesso de açúcar”, destaca.

Outro cuidado que não pode sair da lista da construção de uma boa velhice é a preservação da massa muscular. “A partir dos 40 ou 50 anos começamos a perder músculos naturalmente. Por isso, além da caminhada, é importante fazer algum exercício de fortalecimento, de musculação, sempre respeitando as condições de cada pessoa”.

Além disso, hábitos saudáveis como dormir bem, controlar doenças crônicas, não fumar, reduzir o consumo de bebidas alcoólicas e manter consultas médicas em dia também fazem parte dessa estratégia.

Corpo e mente caminham juntos

Cuidados físicos precisam estar associados à atenção à saúde mental, que não se resume necessariamente à realização de um tratamento psicológico, mas que pode envolver atitudes simples e positivas que podem ser incorporadas ao dia a dia.

“Existe um hábito que às vezes recebe pouca atenção: ter motivos para sair de casa. Um hobby, um curso, um grupo de leitura, um coral, um artesanato, uma atividade religiosa, um trabalho voluntário ou simplesmente um café com amigos. Essas atividades ajudam a manter a mente ativa, diminuem o risco de depressão e melhoram muito a qualidade de vida”, orienta a médica.

Para a especialista, envelhecer bem não significa apenas alcançar uma idade avançada. “Envelhecer bem não significa viver mais anos apenas. Significa viver mais anos com autonomia, disposição e prazer em viver. E isso começa muito antes dos 60 anos, com pequenas escolhas que cabem na realidade de cada brasileiro”, conclui.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here