A magia dos circos, é o artigo de José Ambrósio

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José Ambrósio é jornalista e membro da Academia Cabense de Letras

Por José Ambrósio*

A homenagem ao primeiro palhaço negro brasileiro, Benjamim de Oliveira, enredo da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, ontem à noite na Marques de Sapucaí, me trouxe singelas lembranças da minha infância em Bonança (Tapera, na época, década de 1960), distrito de Moreno, na Região Metropolitana do Recife.

Perdi a conta de quantas vezes segui palhaços nas ruas a convidar para o circo. Era uma festa para a garotada.

O palhaço perguntava, gritando:

– Hoje tem espetáculo?

E a garotada animada respondia prontamente:

– Tem sim senhor!

E o palhaço completava:

– Às sete e meia da noite?

E a resposta era automática:

– Tem sim senhor!

O palhaço era sempre acompanhado por outras atrações, o que incluía mágicos, trapezistas, equilibristas, contorcionistas, anões, malabaristas e até animais, em geral macaquinhos.

E o cortejo só aumentava até a chegada ao circo. Nomes pomposos para circos pobres, mas que atraiam multidões. O deslumbramento da garotada era total.

E todos queriam assistir. E todos os dias. Às vezes o circo permanecia semanas. Dinheiro pouco na comunidade pobre (maioria de canavieiros e costureiras), os meninos sempre encontravam meios de assistir ao espetáculo. Alguns ajudavam nas tarefas diárias do circo e entravam de graça. Outros passavam a vender amendoim, pipoca, cocada, picolé de maneira a ganhar o dinheiro do ingresso.

E tinha aqueles mais ousados que entravam por debaixo do pano. Uma aventura. Como era costumeira a entrada de meninos por debaixo do pano havia sempre alguém circulando entre a cerca de arame farpado e a “parede” de pano que envolvia o picadeiro. Os meninos ficavam atentos, quando um gritava “já vem ele” todos disfarçavam, à espera do melhor momento para entrar.

Era engraçado ver os meninos se encontrando dentro do circo. Olhares de cumplicidade, exultantes. Quando um era flagrado e alcançado, a “gréia” era grande.

E o espetáculo era mesmo um espetáculo para uma garotada pouco afeita a salas de espetáculos. Quantos risos, quanta alegria com os palhaços. Eram realmente muito engraçados. Ríamos até mesmo das piadas que não entendíamos, muito mais pelas “palhaçadas”. A gravata que empinava; a calça folgada que caia deixando à mostra “shorts” de bolinhas coloridas.

A tensão com os trapezistas; as brincadeiras dos anões; a habilidade dos malabaristas; os contorcionistas e as mágicas que deixavam todos incrédulos.

Um mundo diferente. Muitos queriam seguir com o circo, viver um mundo mágico, de brincadeiras, risos, sonhos. Um mundo lúdico na visão da garotada.

Mundo abraçado por Benjamim de Oliveira ainda durante o Brasil Império e escravocrata (nasceu em 1870, em Pará de Minas), no início da adolescência, quando tudo era ainda mais difícil para um menino, pobre e negro. Obstinado, construiu uma bela carreira naquele “mundo mágico” no qual foi cantor, ator, compositor, escritor, dançarino, diretor e palhaço. Trabalho que agora foi reconhecido com a homenagem que emocionou a Sapucaí e o Brasil.

Candeias, 25 de fevereiro de 2020.

*José Ambrósio é jornalista e membro da Academia Cabense de Letras

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