Abril Azul: Diagnóstico precoce do autismo pode mudar trajetórias e ampliar o desenvolvimento infantil

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Foto: Divulgação

O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento cujos sinais podem surgir ainda nos primeiros anos de vida

No Abril Azul, mês de conscientização sobre o autismo, especialistas reforçam um ponto central: identificar precocemente o Transtorno do Espectro Autista (TEA) pode transformar de forma significativa o desenvolvimento e a qualidade de vida das crianças.

O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento cujos sinais podem surgir ainda nos primeiros anos de vida. A Academia Americana de Pediatria recomenda a triagem entre 18 e 24 meses, fase em que já é possível observar indícios como dificuldade no contato visual, atraso na fala e comportamentos repetitivos.

Apesar disso, o diagnóstico ainda ocorre tardiamente em muitos casos. Dados do Censo Demográfico de 2022, do IBGE, indicam que o Brasil possui cerca de 2,4 milhões de pessoas com autismo — o equivalente a 1,2% da população. Especialistas alertam que esse número pode ser ainda maior, considerando o subdiagnóstico, especialmente em regiões com menor acesso a serviços especializados.

Em Pernambuco, a realidade acompanha essa tendência: são mais de 105 mil pessoas diagnosticadas com TEA, sendo mais de 21 mil apenas no Recife. Os números evidenciam a crescente demanda por serviços especializados e políticas públicas voltadas ao diagnóstico e à intervenção precoce.

Segundo estudos do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), aproximadamente 1 em cada 36 crianças está dentro do espectro autista. A organização também aponta avanços na identificação mais precoce, o que amplia as chances de acesso a intervenções em tempo oportuno.

A ciência tem demonstrado de forma consistente que os primeiros anos de vida representam uma janela estratégica para o desenvolvimento. Pesquisas publicadas em periódicos como o JAMA Pediatrics indicam que intervenções iniciadas na primeira infância estão associadas a melhorias significativas na comunicação, na cognição e no comportamento adaptativo.

Esse potencial está diretamente relacionado à chamada neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de se reorganizar e aprender com maior intensidade nos primeiros anos de vida.

Para a psicóloga Pollyanna Pontual, especialista no tema, o tempo é um dos fatores mais determinantes no prognóstico das crianças com TEA. “Quando a gente identifica cedo, a gente não está apenas dando um nome ao que a criança apresenta. A gente está abrindo portas para intervenções que podem desenvolver habilidades fundamentais, como comunicação, autonomia e interação social”, explica.

Ela destaca que, na prática clínica, a diferença entre iniciar o acompanhamento precocemente e tardiamente é evidente.

“Crianças que chegam mais cedo ao atendimento têm uma evolução muito mais consistente. Isso acontece porque o cérebro ainda está em uma fase de alta plasticidade, o que favorece o aprendizado e a adaptação”, afirma.

Além disso, o diagnóstico precoce permite a construção de planos terapêuticos individualizados, respeitando as particularidades de cada criança dentro do espectro – como detalha a fundadora e gestora do Espaço Transformar, clínica dedicada ao tratamento de TEA, Flávia Valença. “Cada criança é única. O diagnóstico não é um rótulo, mas um direcionamento. Ele permite que a gente organize intervenções adequadas e envolva a família de forma mais assertiva no processo”, complementa ressalta.

Especialistas também ressaltam que o envolvimento da família é um fator essencial para o sucesso das intervenções, assim como o acesso a uma abordagem multidisciplinar, que pode incluir psicologia, fonoaudiologia e terapia ocupacional.

Diante desse cenário, o principal desafio ainda é ampliar o acesso à informação e aos serviços especializados, garantindo que mais crianças sejam identificadas e acompanhadas no momento adequado. “A conscientização precisa ir além da informação. Ela precisa gerar ação. Observar os sinais e buscar ajuda o quanto antes pode mudar completamente o futuro de uma criança. No contexto do autismo, o tempo não é apenas um detalhe — é uma oportunidade decisiva de desenvolvimento, inclusão e qualidade de vida”, pontua Pollyanna.

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