Um alerta à saúde, no período de chuvas e enchentes

0

Por Liziê Franco, sanitarista.

O risco de enchentes e alagamentos resultado das chuvas intensas, desperta um olhar para uma realidade cruel e fatídica: a falta de planejamento urbano, saneamento básico, as diferenças sociais, o crescimento desordenado, a falta de educação ambiental, a falta de infraestrutura, o que infelizmente desencadeia  tragédias e perdas irreparáveis. Com o aumento dos índices pluviométricos existe a possibilidade de risco do surgimento de doenças por veiculação hídrica importantes em saúde pública como: leptospirose, hepatites, diarreias, como também as arboviroses: dengue, zika e chicungunya.

Essas doenças são comuns se apresentarem, seja pela contaminação da água, alimentos ou aumento de vetores. Uma das doenças de bastante incidência neste período é a leptospirose, infecção causada por uma bactéria do gênero leptospira muito resistente, podendo sobreviver no ambiente externo por até 6 meses. Segundo o Ministério da Saúde, a leptospirose tem uma incidência anual de cerca  de 3.600 casos e uma média de 375 óbitos a cada ano no Brasil, e os registros ocorrem principalmente nas capitais e regiões metropolitanas.

Por ser prevalente em áreas pobres com escassez de condições econômicas e precarização de infraestrutura, é classificada como uma Doença Tropical Negligenciada (DNT) de modo a não despertar interesse das grandes indústrias farmacêuticas em investimentos de pesquisa, produção de medicamentos ou mesmo vacinas. A sua transmissão ocorre através da exposição do homem, hospedeiro acidental, a urina do principal reservatório os roedores sinantrópicos, ou seja, os ratos, por meio do contato com a água na qual é facilitadora no processo de contaminação. Outros animais como gatos, cães, porcos, também podem transmitir a doença, caso estejam contaminados.

É possível também ocorrer a contaminação pela ingestão de bebidas em lata que tenha sido exposta a urina de roedores contaminados. Trabalhadores que executam suas atividades laborais na limpeza de lama, canais e córregos, em desentupimentos de esgotos devem fazer uso de equipamentos de proteção individual (EPIs), pois correm o risco de exposição a bactéria leptospira .  Geralmente a bactéria leptospira interrogans penetra através das mucosas ou ferimentos na pele, provocando sintomas como febre alta, icterícia, dor de cabeça, náuseas, calafrios, dores intensas musculares principalmente na panturrilha, abdômen, costas e perda de apetite.

O quadro pode evoluir para complicações como insuficiência renal, hemorragias, meningite e até levar a óbito caso não tenha uma assistência à saúde em tempo hábil. Os sintomas surgem entre 7 e 14 dias após o contato com a bactéria. O tratamento é feito com antibióticos, hidratação e medicamentos para atenuar os sintomas. Caso haja contato com águas de enchentes deve ser obedecido o uso de botas e luvas de borracha, bem como lavar com água sanitária tudo que foi exposto à enchente, como moveis e utensílios, evitar o acumulo de lixo e entulhos. A infecção por leptospirose tem cura.

É importante salientar a necessidade de cuidados imediatos de assistência à saúde às populações afetadas por enchentes. A doença só será efetivamente controlada quando houver enfrentamento as discrepâncias sociais por parte do poder publico através de políticas públicas sociais e de saúde eficazes, da melhoria de infraestrutura adequada nas áreas de risco, melhoria das moradias, saneamento e ações de educação ambiental permanente. Esses são instrumentos prioritários e básicos para mitigar os danos causados recorrentes advindos do período chuvoso a esses grupos sociais.

Liziê Franco é sanitarista

 

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here