RIQUEZAS DA CAATINGA: o potencial desconhecido de um dos biomas mais desprotegidos do Brasil

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Pesquisadores buscam alternativas para preservar e restaurar o semiárido nordestino

Por Aline Melo/Edição: Gabriel Alves

Apesar de a caatinga ser um bioma exclusivamente brasileiro e ocupar 11% do nosso território, é um dos menos protegidos no país. Segundo um monitoramento do Ministério do Meio Ambiente, mais de 46% da vegetação original da caatinga já foi desmatada e a região Nordeste do Brasil pode perder um terço da sua economia — dezenas de bilhões de reais —  até o final do século pelos efeitos do aquecimento global e da desertificação que se agrava com o desmatamento.

De acordo com especialistas, é necessário não só pensar na preservação da vegetação original que temos hoje, como também aplicar estratégias para restaurar parte do que foi perdido, além de entender o que se pode extrair do bioma de forma sustentável.

A caatinga é um bioma com clima semiárido de uma rica biodiversidade. A vegetação é composta por plantas xerófitas, adaptadas a esse tipo de clima por armazenarem grande volume de água e possuírem poucas folhas (para diminuir a área de evaporação) e raízes longas para alcançar água em um nível mais profundo do solo. Xique-xique, mandacaru outras espécies de cactos são exemplos comuns da paisagem, além de grandes árvores como o umbuzeiro. A fauna também é diversificada: ararinha-azul, macaco-prego, onça-parda e jacaré-de-papo-amarelo são exemplos de vertebrados que encontramos na caatinga, sem contar 40 espécies de lagartos e 45 de serpentes catalogadas.

O desmatamento acelerado e a falta de medidas eficazes de conservação por parte do governo federal estão cada vez mais extinguindo a biodiversidade quase inexplorada da caatinga e também provocando mudanças no clima de forma muito rápida. É isso que afirma a climatóloga Francis Lacerda, que observou um aumento sistemático da temperatura somado à diminuição da ocorrência de chuva. “Em dois locais de Pernambuco, Caruaru e Araripina, a gente achou um padrão diferente: a temperatura máxima aumentando e a temperatura mínima diminuindo, o que é um sinal de clima desértico. Ou seja, nesses dois lugares existe um sinal claro de um processo de desertificação acelerada”.

A diminuição da ocorrência da chuva também é um fator preocupante, e lugares como Araripe, município do Ceará, registram uma queda de dez milímetros por ano. Nesse ritmo, em 50 anos o índice anual terá caído pela metade. “Na região do Araripe a gente encontrou quase um grau por década de aumento. Tem áreas ali em que [o aumento] chega quase 5°C em 50 anos. É um aumento muito alto de temperatura e de redução da precipitação em todos os locais que a gente estudou”, conta Lacerda.

O uso intensivo dos recursos naturais sem medidas sustentáveis também cria um ciclo de exploração e pobreza que aumenta a vulnerabilidade dos pequenos produtores rurais e diminui a renda com a perda de diversidade. Entre mais de 28 milhões de pessoas vivendo no semiárido nordestino (14,5% da população brasileira), a maioria faz parte da comunidade rural pobre.

Umbuzeiro. Foto: Fernanda Muniz
As políticas públicas em vigor até o momento para a caatinga não incluem uma estratégia de aproveitar todo o potencial do bioma e abordam apenas o problema da escassez de água no semiárido. “Há falta de investimento financeiro nas iniciativas voltadas para o semiárido, falta de apoio técnico também”, afirma o diretor de Recursos Hídricos e Extensão Rural do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), Flávio Duarte. Procurado pela reportagem para apresentar suas ações sobre preservação e restauração do bioma, o Ministério do Meio Ambiente não respondeu aos questionamentos.

Uma das alternativas em estudo para mitigar os efeitos do desmatamento e aproveitar o potencial do bioma é o método Nexus água-alimento-energia na política ambiental. No artigo Adding forests to the water-energy-food nexus, publicado na revista Nature Sustainability, os autores afirmam que “as florestas precisam ser tratadas como um recurso natural acessível a diversos grupos sociais e com a segurança garantida [… e] não devem ser vistas como entidades puramente naturais, mas continuamente sendo (re)criadas, fortemente relacionadas à política e à cultura”.

A pesquisadora americana Robin Chazdon, especializada em estudos de conservação e restauração de biodiversidade e uma das autoras do artigo, diz que existem semelhanças na destruição do semiárido brasileiro com o semiárido de outras partes do mundo, como na Austrália, pois existe uma “forte influência política dos setores da indústria e agricultura e influência política limitada de líderes ambientais e cientistas. É uma questão de dinheiro, que compra influência política em todos os lugares”.

Ela reforça também a necessidade de buscar soluções eficazes para conter o desmatamento o quanto antes: “A mudança climática ainda não é reversível, mas é preciso agir agora para reduzir muito as emissões de gases do efeito-estufa e armazenar carbono a longo prazo (não apenas em soluções rápidas). Temos uma janela de 10 a 15 anos para evitar um estágio crítico para o planeta com relação às mudanças climáticas”.

Placas solares do projeto Ecolume. (Foto: Alexandre Gondim)

Sistema agrovoltaico pioneiro na América do Sul, instalado em Ibimirim, pelo Projeto Ecolume.

Foto: Ascom Ecolume
Liderado pelo IPA, o projeto Ecolume elaborou um plano para a segurança hídrica, energética e alimentar na caatinga: restaurar parte da vegetação nativa para tentar estabilizar o ciclo hidrológico e utilizar energia elétrica fotovoltaica. Em 2018, o município de Ibimirim, no sertão de Moxotó, em Pernambuco, recebeu o primeiro sistema agrovoltaico, com emprego de painéis solares,  da América do Sul. O sistema pode gerar economia de mais de R$ 4.000 ao ano para uma propriedade de 24 m².

O sistema agrovoltaico consiste em painéis solares que formam uma “semiestufa” com o cultivo das plantas abaixo das placas. Esse dispositivo cria um efeito de arrefecimento (queda de temperatura) devido ao microclima gerado pela estrutura. No caso do Ecolume, ainda há o sistema de aquaponia com reuso da água da chuva: união da piscicultura (cultivo de peixes) e a hidroponia (cultivo de plantas com as raízes submersas na água).

Aquaponia no Projeto Ecolume (Ascom Ecolume).

Em uma área de apenas 24 m², foram gerados 4800 kWh de energia, 130 kg de peixe, 730 unidades de ovos, 336 kg de hortaliças e 200 mudas de plantas nativas foram produzidas, totalizando um faturamento anual de R$ 10.381. Se expandir o projeto para uma área de 24 km² da caatinga, existe um potencial de gerar R$ 10 bilhões por ano.

O umbuzeiro, denominada por Euclides da Cunha como a árvore sagrada do sertão, é uma das principais plantas nativas, e seu fruto, o umbu, tem um grande potencial bioeconômico em aplicações medicinais e nutricionais. O Ecolume também incentiva o cultivo dessa árvore: agricultores em Afogados da Ingazeira, município de Pernambuco, receberam mais de 700 mudas para desenvolver uma floresta de umbu na Serra do Giz. Na brochura do projeto, os pesquisadores envolvidos afirmam que o objetivo é também ajudar a reduzir os efeitos da mudança climática: “estudos mostram que uma área de 20 hectares de reflorestamento, em média, tem o potencial de sequestro de carbono de 10.400 toneladas de CO2 em vinte anos”.

Outra iniciativa de reflorestamento e de pesquisa no IPA é o herbário com cerca de 81 mil plantas, sendo 80% nativas da caatinga. É um local crucial  para pesquisas sobre  essa flora e de fornecimento de mudas para reflorestamento,.

Além do cultivo das plantas nativas, o Duarte frisa a importância do “consórcio”, estratégia de inserir plantas que não são nativas, mas que se adaptam ao clima semiárido com facilidade. Dessa forma, o reflorestamento da caatinga não se trata apenas de cultivar as plantas da vegetação original, mas também acrescentar outras alternativas que gerem incremento na produção alimentar e na economia da região.

Combater a ideia de um sertão pobre e sem recursos é o grande desafio para os pesquisadores que investigam o potencial socioeconômico e ambiental da caatinga. Apesar das dificuldades, o prognóstico, para Lacerda, é esperançoso: “Vai deixar de ser o semiárido que foi estigmatizado pela pobreza. Passa a ser o semiárido rico e próspero, que é o que a gente quer ver num futuro próximo. Nós merecemos isso”.

Cacto xique-xique com fruto. Foto: André Pessoa
(Reportagem produzida durante o I Programa de Mentoria para Jovens Jornalistas da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência (RedeComCiência).

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