Eleições Municipais, é o artigo de José Toufic Thomé

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Prof. Dr. José Toufic Thomé é médico pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Psiquiatra e Psicoterapeuta especialista em situações de crises e transtornos da contemporaneidade. Presidente da Secção Psiquiatria em Crises e Desastres da Associação Mundial de Psiquiatria (WPA na sigla em inglês). Coordenador do Curso Psicoterapia e Intervenção Psicodinâmica em Situações de Crises, Estresse e Trauma, no Instituto Sedes Sapientiae de SP. Presidente da Unidade Brasil da Rede Ibero-Americana de Ecobioética – Cátedra UNESCO de Bioética. Membro do Corpo Clínico do Hospital Sírio-Libanês

Eleições Municipais

José Toufic Thomé

A polarização e o antagonismo pouco esclarecido, entre os adeptos de discursos políticos exacerbados à esquerda e à direita, atingiu o seu ápice durante as eleições, há dois anos. E apesar de, infelizmente, ainda existirem grandes parcelas do eleitorado cegamente engajadas em apenas atacar o lado oposto, movidas por um desejo intenso, irracional, incontrolável e antecipador de sofrimento, no meu receituário, eu ainda prescrevo o alinhamento com os que enxergam nas mudanças de atitude pessoais e coletivas, como a solução para alcançar dias melhores.

Em outubro de 2018, manifestei preocupação com a população, pela perspectiva da Saúde Mental. E entre outros apontamentos, ressaltei que a partir das campanhas eleitorais sujas e desconexas apresentadas, o sentimento de impotência e desamparo afligiria indivíduos em diferentes segmentos. Em seguida, em dezembro e frente ao desejado momento de rescaldo emocional que deveria ocorrer após a apuração, alertei que seria necessário pacificar a sociedade, amenizando sentimentos de ódio e revanchismo. E afirmei ainda, que para reconectar os vínculos emocionais que unem a nação, seria indispensável governar democraticamente, com sabedoria, humildade e pluralidade.

Após dois anos, é difícil identificar a construção efetiva de alguma religação social, humana ou estrutural, sob o ponto de vista da gestão pública, em diferentes níveis de poder. É fato que já não ouvimos mais o termo “pós-verdade”. Mas as “fake news” ou, simplesmente, “mentiras”, entraram oficialmente no cotidiano nacional, como estratégia argumentativa. Termos como “incompetência”, “despreparo”, “falta de decoro” e “estupidez” também se tornaram comuns. E em meio a uma pandemia, que até o último dia cinco vitimou 1.221.781 pessoas, segundo a OMS, a sociedade brasileira deverá voltar às urnas, no próximo domingo, e escolher novos representantes. Dessa vez em nível municipal.

Nesse “ambiente disruptivo” ou, simplificadamente: realidade tóxica, para a qual os seres humanos não estão emocionalmente preparados, e que apresenta potencial para adoecê-los psiquicamente. Uma intervenção eficiente deverá buscar o desenvolvimento de soluções em conjunto, e que construam, progressivamente, as melhores alternativas. Evitando tanto vitimizar populações, quanto promover privilégios, e afastando os desejos por transformações “mágicas” e salvadores com poderes incríveis.

Sob os pontos de vista social, humano e político em sua definição fundamental, a Eleição Municipal será uma oportunidade sem par para a reconstrução dos vínculos democráticos, indispensáveis ao funcionamento de uma sociedade saudável. É a partir das cidades e da interface direta que existe entre a população, suas necessidades, desejos e expectativas; e os vereadores, prefeito e estrutura administrativa por ele liderada; que as pessoas poderão, ou não, voltar a ser e sentir-se protagonistas em suas histórias.

O momento exige reflexão sobre si e sobre os outros. A sociedade deve corrigir erros e aprimorar as suas práticas em áreas diversas, tais como economia, educação, saúde, transporte, moradia. Enfim, a relação social que nos acolhe, ou ameaça, precisa da contribuição individual, responsável e permanente de todos. E um dos passos importantes no resgate social que precisa acontecer, será exigido dos eleitores no dia 15 de novembro. Mais que simplesmente, manifestar-se contra ou a favor de um discurso, é necessário escolher com quais ideias e ações estamos dispostos a colaborar. E, é claro, preparar-se para, efetivamente, contribuir com o esforço que será necessário para reverter o atual diagnóstico ruim.

Prof. Dr. José Toufic Thomé é médico pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Psiquiatra e Psicoterapeuta especialista em situações de crises e transtornos da contemporaneidade. Presidente da Secção Psiquiatria em Crises e Desastres da Associação Mundial de Psiquiatria (WPA na sigla em inglês). Coordenador do Curso Psicoterapia e Intervenção Psicodinâmica em Situações de Crises, Estresse e Trauma, no Instituto Sedes Sapientiae de SP. Presidente da Unidade Brasil da Rede Ibero-Americana de Ecobioética – Cátedra UNESCO de Bioética. Membro do Corpo Clínico do Hospital Sírio-Libanês-http://www.josethome.med.br/

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